Por que meu cabelo não é moda

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Eu sempre tive muito cabelo e ele sempre foi bastante volumoso desde que eu consigo me lembrar. Aprendi desde muito criança que volume era algo ruim, que cabelo crespo era ruim, que meu cabelo era rebelde e precisava ser domado. E, na época, eu brincava com uma menina loira de cabelo liso e a gente adorava as Spice Girls. Eu odiava me parecer com a Mel B. Eu queria ser a Emma. A Emma era loirinha, fofinha e tinha o cabelo liso. Eu odiava não me parecer com a Emma e nem com todas as referências midiáticas que vieram a seguir na minha vida. Além da Mel B, a única negra com cabelo natural que me lembro da época era a Globeleza (Valéria Valenssa). 

A primeira vez que fiz algum procedimento químico no cabelo devia ter 9 anos de idade. Meu primo mais novo disse que eu ficava melhor com meu cabelo natural, mas eu já tinha aprendido a torcer o nariz pra isso (e ele ainda ia aprender). Depois disso passei a fazer relaxamento pra diminuir o volume, conter toda a rebeldia do meu "cabelo ruim". Com o passar do tempo começaram a não acertar mais a mão e o cabelo ficava com duas texturas diferentes. Parei. Depois disso comecei a fazer progressiva. Desisti. Usei henê, mas não queria perder os cachos, só diminuir o volume (sempre o volume). Perdi os cachos e passei a só fazer chapinha. Tive a fase cabelo cacheado, franja lisa (aquela coisa bem linda - sqn). Sempre tive N jeitos de tentar conter meu cabelo. Molhar toda hora, fazer chapinha, touca, relaxamento caseiro. Lembro que um dia minha mãe me chamou pra sair e eu não conseguia fazer nada no meu cabelo. Eu me odiava, não queria sair na rua daquele jeito, queria chorar.


Quando me mudei pra Maricá, trabalhei no Centro do Rio por um tempo e fazia progressiva no prédio que trabalhava. O salão se mudou de lá e fiquei meses sem retocar minha raiz. Quando encontrei um salão perto de casa, acharam que meu cabelo só tinha jeito com relaxamento e progressiva. Meu cabelo ficou duro, caía e eu sempre tinha pesadelos em que perdia todo o meu cabelo. Tive que cortar e fiquei mais vários meses sem fazer química, mas a chapinha estava sempre presente. Depois de mais algumas experiências frustradas com salões de beleza, fiz minhas últimas progressivas no mesmo salão que quase me deixou careca. Tinha vontade de parar, mas também tinha preguiça. Tinha amigas que já tinham passado pela transição. Encontrei um grupo sobre o assunto. Considerei e abracei a ideia. Fiz um vídeo contando a minha decisão.

Uma das primeiras pessoas do meu convívio que soube me falou "você não vai fazer isso". Passei meses escondendo duas texturas na base da chapinha (eu não fiz cronograma e só fiz duas texturizações em 7 meses de transição). Cortei meu cabelo curtinho e me preparei pro baque na autoestima. Mas eu tinha noção de que era o que eu queria. Eu precisava dar essa chance ao meu cabelo. E aí veio primeiro comentário: "preferia seu cabelo antes". Ok. E depois o segundo: "passa aqui pra gente fazer um relaxamento, dar uma soltada nos cachos, abaixar a raiz". Ok. Enfiaram um pente de piolho no meu cabelo porque acharam que ia ser engraçado. Me falaram "vai pentear esse cabelo", "faz uma chapinha", "vai sair assim?". Ouvi e vivi isso tudo e só conseguia me perguntar onde eu tava que não conseguia perceber as pessoas sendo tão preconceituosas assim antes. A resposta a gente já sabe: eu estava tentando ser exatamente o que esperavam.


Os comentários me incomodaram, mas não me pararam. Eu estava me descobrindo. Eu via as meninas que tinham passado pelo mesmo processo muito mais lindas e seguras. Elas estavam radiantes e eu queria isso também. Sabia que era só uma questão de paciência. E nisso fui descobrindo meu cabelo, redescobrindo minha autoestima (que não depende de absolutamente ninguém além de mim pra ser boa). Descobri que as pessoas tecem comentários maldosos às vezes porque elas aprenderam assim também e só me resta ter paciência pra explicar ou ignorar.

Hoje a maioria das pessoas me elogia ou elogia meu cabelo. Mas não se iluda. Elas não me acham linda porque eu aderi à "moda do cabelo cacheado". Isso não existe. Me acham linda porque eu sou linda (não vou dizer que me acho porque eu tenho é certeza mesmo). Porque nessa de uma vida inteira tentando agradar o gosto das pessoas e aderindo a ele, eu tive o desejo e a oportunidade de mudar o meu ponto de vista e me aceitar como eu sou. Com o cabelo que Deus me deu. Aquilo que você chama de moda eu chamo de autodescoberta, amor próprio, empoderamento, liberdade... Moda é um negócio que dá e passa. Se sentir bem sendo quem você é não pode ser confundido nunca. 

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