Eu e o meu cabelo

10:30

Eu não sou exatamente uma pessoa pública. E depois de passar a adolescência quebrando a cara com indiretas no twitter, exposição gratuita não é muito a minha cara. Por exposição gratuita eu me refiro a exageros. Quem escreve sabe que mesmo sem querer a gente deixa vazar o que tá sentindo através do que escreve.

Pois bem. Independente disso, o fato ter uma conta numa rede social qualquer (mesmo expondo o mínimo da sua vida) ou realizar uma mudança ou simplesmente existir, faz com que as pessoas palpitem na sua vida sobre coisas que você nem tinha pensado em pedir a opinião delas.

Quando você passa muito tempo "vendendo uma imagem", mudar isso sempre gera um rebuliço. E sempre vai ter alguém incomodado ou falando mais do que você perguntou - se é que você perguntou alguma coisa.

Expus isso tudo porque vim falar de algumas coisas que ouvi e ouço de vez em quando desde que descobri o que era transição capilar e resolvi passar por ela. Nem sempre dá pra simplesmente ignorar, mas também não vale a pena brigar. Faça como eu (só que não) que nunca consigo responder na hora de tão perplexa que fico.

Bom, pra começar, assim que eu decidi que passaria pelo processo de transição, me disseram: você não vai fazer isso!

- Desculpa. Não lembro de ter perguntado se eu podia! - essa e as próximas respostas chegaram muito depois dos "desaforos".

Eu sei o quanto a ideia de ter cachos me atormentava (no bom sentido) há tempos e o quanto eu havia adiado a decisão por preguiça do processo. Quando eu decidi, eu precisava daquilo. Parece bobo, pode parecer fútil ou sem sentido, mas voltar pro cabelo natural é muito mais que uma mudança no visual. A gente muda a forma de se ver, de se sentir bem e bonita. Ninguém pode decidir que você vai ou não vai passar por isso. A força de vontade de tocar o processo vai ser só sua, é intransferível. Então ninguém pode te dizer o que fazer.

A segunda coisa que eu ouvi de algumas pessoas, mas poucas foi: eu preferia seu cabelo antes.

- E eu com isso?

Sério. É absurdamente estranho olhar pras fotos de antes e tentar me reconhecer nelas. A sensação que eu tenho é de que eu me camuflava de cabelo alisado. Ficava com uma aparência padrão, igual a todo mundo. Se eu parar pra pensar nisso, eu sou a cara de várias cacheadas. Pasmem, voltaram a dizer que eu pareço a Valéria Valenssa (coisa que eu ouvia quando era criança). Mas se é pra parecer com alguém, que eu pareça com alguém porque isso é natural e não porque tô tentando ser quem não sou.

(salvo o caso das pessoas que se sentem bem de cabelo alisado e ninguém tem nada com isso)

A terceira coisa, mais irritante da vida que eu ouvi e foi o motivo de eu escrever esse post foi: ah, mas tem que dar uma abaixada na raiz, uma soltada nos cachos!

- Querida, tenho que dar é uma soltada de mão nessa tua cara, palhaça! - fique claro que essa resposta é uma brincadeira, pois mesmo que eu tivesse respostas na ponta da língua, não faz meu estilo partir pra ignorância.

Não! Eu não quero diminuir o volume da minha raiz. Não quero relaxar meu cabelo ou abrir os cachos. Meu cabelo tá perfeito assim. De um jeito que eu nunca havia dado a chance dele ficar porque passei anos da minha vida engessada no pensamento de que o cabelo só era bonito sem volume, com cachos largos e o caramba. Não, para! Não é por aí. Eu acredito que as pessoas podem ficar lindas em seus próprios cabelos se souberem cuidar e usar de uma maneira que realce a beleza de cada um. Isso com corte, penteado, finalização e etc. Só saber fazer bom uso do que se tem.

Por causa dessas coisinhas chatas que me falaram, eu decidi escrever esse post, porque outro dia recebi uma mensagem que era quase um pedido de ajuda de uma menina que quer voltar aos cachos, mas que por várias razões não consegue.

Me sinto no dever de falar que transição não é puro glamour e eu acho que todo mundo sabe, mas vale ressaltar. Se você não estiver certa de que é isso o que quer, vai ser muito mais difícil manter. Porque, mesmo querendo isso, eu passei por dias da autoestima estar lá no pé, de me sentir estranha, de ficar na dúvida se eu ia gostar de me ver de cabelo cacheado, se eu conseguiria lidar com meu cabelo...

Comecei a mudar a estrutura do meu cabelo muito cedo porque a aceitação familiar (daquela que passa de uma geração pra outra e ninguém percebe) não era lá essas coisas e eu achava que precisava mudar meu cabelo pra ser bonita. Mudei e cansei. Tava cansada do processo, do desespero da raiz nascendo cacheada e etc.

Quando comecei a transição eu pensava: se eu não curtir, eu aliso de novo. Mas prometi dar uma chance ao meu cabelo. Precisava vê-lo, senti-lo. Não é um mar de rosas sempre, mas o saldo é muito mais positivo do que negativo. E os elogios também são muito mais frequentes do que os comentários maldosos. Transição capilar é uma mudança que exige força de vontade, determinação, paciência e amigos que te apoiem porque querem te ver bem. Mesmo que antes disso você fique meio baranga com as duas texturas, insegura e monotemática (porque a gente dificilmente sai do tópico cabelo quando passa por isso).

Enfim, tentei resumir ao máximo, mas ficou um post imenso mesmo assim. Qualquer dúvida que vocês tiverem, compartilhem comigo pra gente se ajudar.

Um beijo e até mais

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2 comentários

  1. Quando te conheci você ainda tinha cachos e um cabelo longo, mas me lembro vagamente dessa época. Mas sou TOTAL apoiadora da transição. Você fica infinitamente mais bonita com esses cachos e sendo você mesma. E já que tem aquela famosa frase de que toda loira precisa da sua morena, digo que toda lisa precisa da sua cacheada. Te amo!

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    1. Ai, que linda, meu Deus! Obrigada, amiga. Na verdade boa parte das pessoas que me conheceram antes dos alisamentos eram contra os alisamentos. Mas sério. Sem o seu apoio e o apoio de uma galera isso seria bem mais difícil. Obrigada. Te amo ♥

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